A vacina e as eleições de 2022

 

A vacina e as eleições de 2022

Neste início de semana, quem costuma acompanhar os noticiários políticos não se deparou com escândalos de corrupção ou operações da Polícia Federal envolvendo políticos ou empresários, mas sim uma disputa nada sutil com vistas às eleições de 2022 entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O que deveria ser a união de forças de dois líderes políticos em busca de uma solução para minimizar a pandemia causada pelo novo coronavírus, que já causou quase 155 mil mortes no Brasil (mais de 38 mil no Estado) e atingiu 5,2 milhões de confirmados, sendo mais de 1 milhão de paulistas, se tornou palanque para as eleições presidenciais que ocorrem exatamente daqui dois anos.

Desde que começou a pandemia de covid-19 no Brasil, assistimos Bolsonaro e Doria divergirem quanto às medidas para evitar a proliferação do coronavírus, sempre em busca de holofotes para provar quem tem a medida mais eficaz (ou populista). Ambos querem ser os heróis da covid, ou melhor, almejam mesmo vencer as eleições em 2022 – no caso de Bolsonaro, se reeleger. Faz isolamento social, quarentena ou lockdown; indica cloroquina ou outro tratamento; constrói hospital de campanha; obriga uso de máscara ou libera geral; assim vem sendo desde março.

Agora a disputa é para ver quem será o governante que vai oferecer a vacina contra a covid para a população primeiro. Ao anunciar que a vacina do Instituto Butantã seria a “vacina do Brasil”, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, despertou a ira dos defensores de Bolsonaro contrários à Doria, que foram às redes sociais cobrar um posicionamento do presidente quanto à compra do imunizante da farmacêutica chinesa e uma possível parceria com o adversário tucano.

E é claro que Bolsonaro não deixou por menos e respondeu à altura, desautorizando Pazuello quanto ao acordo com o Instituto Butantã e a Sinovac e gerando enorme constrangimento no Ministério da Saúde, que, afinal de contas, deveria trabalhar para os brasileiros e não para os políticos que estão de olho nas eleições presidenciais. A intenção de Pazuello foi zerar a boataria envolvendo um possível boicote a vacina produzida na China e acalmar a sociedade sobre o início da vacinação já no começo do próximo ano.

Em suas respostas aos apoiadores, Bolsonaro disse que os brasileiros não serão cobaias da “vacina do Doria”. Diante disso, especialistas questionam se Bolsonaro usará seu poder para intervir na avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto à eficácia da Coronavac ou permitirá que os trâmites ocorram normalmente, levando em consideração apenas as questões técnicas e científicas para liberar ou não a referida vacina.

Vale lembrar que o Brasil tem outras três vacinas em testes: a da AstraZeneca (Universidade de Oxford), a da Pfizer e a Jansen. Porém, a que está em fase mais avançada atualmente é a Sinovac, em parceria com o Instituto Butantã. Bolsonaro está numa sinuca de bico: deixar as avaliações da Sinovac ocorrerem normalmente e talvez dar de bandeja uma ótima plataforma eleitoral para Doria usar contra ele em 2022; ou intervir e ser acusado por atrasar a imunização no Brasil, prejudicando milhões de brasileiros. E agora?

 

22/10/2020

 

 

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